Uma das luzes do corredor não funcionava direito, piscava três vezes, como numa espécie de aviso, e então se acendia completamente, clareando boa parte do caminho, para cinco segundos depois voltar a piscar outra vez. Edgar já passara centenas de vezes por aquele corredor, mas talvez nunca tivesse reparado naquilo. Sua cabeça sempre cheia de coisas. Abriu a porta de uma das salas e entrou. Com os braços e pernas amarrados numa cadeira, um homem jazia, a cabeça pendendo para frente, nu. Edgar olhou-o com atenção, curiosidade, porém uma curiosidade comum, costumeira. Acendeu um cigarro e circulou ao redor da sala, notando as cicatrizes no corpo do sujeito. Não gostava de estar ali, do cheiro que aquelas salas tinham, um misto de suor, sangue, fezes e urina. As paredes também eram escuras, mofadas, e davam-lhe uma sensação estranha, um distanciamento da vida e de tudo o que ocorria lá fora. Caminhou até uma extremidade e pegou um pedaço de pau, quase um bastão, que ficava num canto. Cutucou o homem sobre a cadeira, mas ele continuou imóvel, com a cabeça caída. Por um instante, olhou para o relógio no pulso: eram quatro e quinze da tarde. Lembrou que estacionara o carro num lugar proibido e calculou a quantidade de multas que já recebera. Então cutucou o homem mais uma vez, agora mais forte, e ele se mexeu, virando a cabeça e o olhando com aqueles olhos inchados e escuros.
- Algoa – o homem murmurou, a voz rouca, quase não saindo.
Edgar andou até a porta. Num canto, um balde repleto de um líquido de cor marrom que ele mesmo não sabia dizer o que era. Segurou o balde e, aproximando-se do homem, jogou todo o líquido no rosto dele. Mesmo amarrado, o outro contorceu-se e gritou coisas sem sentido, girando a cabeça desesperadamente para os lados, e Edgar puxou uma outra cadeira e sentou-se de frente para ele.
- Quer falar? Já não basta? – disse.
Havia sangue coagulado no chão e também por todo aquele rosto disforme, o corpo já muito magro feito um faquir.
- Você pode sair daqui quando quiser, Jorge, só precisa cooperar um pouco. Consegue entender isso?
Jorge não respondeu. Não sabia onde estava, mas imaginava quem eram aqueles homens que há dias lhe faziam perguntas. Lembrou-se da mulher, dos cuidados que ela lhe pedia para ter e que ele não tivera.
- Jorge, você só precisa dizer um nome e te deixamos em paz – Edgar disse, acendendo outro cigarro.
As mãos de Jorge, antes tão bonitas, as mãos de um Jovem sonhador, tinham agora um aspecto estranho, pareciam um pouco cinzas, um pouco amarelas, os nós dos dedos saltando, tão grandes.
- laur... – ele disse.
- Como? Edgar levantou-se, aproximando o seu rosto ao do outro.
- Lauro... – Jorge falou, tremendo de frio e de fome, de dor e de medo também, mas sobretudo pela fraqueza que jamais imaginara ter.
- Lauro de quê? Diz, porra, Lauro de quê?!
-... Diniz...
Então Edgar levantou-se,seus olhos brilhando feito imensas constelações, e imediatamente tirou o celular do bolso e discou um número.
- Oi. Consegui o nome do canalha... Sim... Lauro Diniz, sabe quem é?... Bom...Não, não, pode fazer. Qualquer coisa você me liga. Ta.
Guardou o telefone e encarou o outro sentado na cadeira. Aquele cheiro no ar continuava, forte, ruim, o cheiro de quem não presta, pensou. Levou as mãos às costas e puxou o taurus. Olhou-o por um instante – ganhara-o há alguns anos, presente de um superior. Então virou-se e apontou a arma para a cabeça de Jorge e deu um tiro. O barulho ecoou pela sala, mas depois de alguns segundos o silêncio predominou: ficou apenas aquele eco distante, de algo feito a quilômetros dali. Ninguém apareceria, de qualquer forma. Quase sorriu ao pensar nisso. Em seguida olhou para o relógio: eram quinze para as cinco da tarde. Guardou o taurus, abriu a porta da sala e voltou pelo mesmo corredor - a lâmpada piscando uma, duas, três vezes, de repente acendendo-se num clarão, para logo depois voltar a piscar outra vez.
Rodrigo Melo
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5 comentários:
O que está feito, feito está... esse continho prendeu a atenção de verdade e esse clima claustrofóbico, noir... excelente!
Abração
pq eu sempre espero que alguém se safe nos teus contos? gostei bastante. beijo, tati
Ah,meu querido,vc continua afiado e inpirado,e eu continuo seu fã,só ter peço que mande mais desses e me dê um pouco mais de tempo p/ eu meafeiçoar aos seus parsonagens.
Isso ai Cate, sempre mandando bem. Muito bom.
Eu senti os cheiros pesando no ar!
E o começo é o fim, tal como a morte.
bjo*
Bi
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