Caco, o homem-arte, apareceu para almoçar e acabou ficando pra janta. Passou a tarde inteira no sofá, reclamando das dificuldades de ser um artista e soltando vez por outra uma bufa daquelas de azedar. Um comportamento meio batido, mas que ele insiste em manter.
- ninguém sabe o que já sofri.
- Isso é uma música? – perguntei.
- na minha concepção, tudo pode ser música, tudo pode ser arte, tudo pode ser vida...
Ele se diz pintor, músico, ator e escritor, além de produtor freelancer. Pelo que sei, faz tempo que não cria nada, mas parece que andar entre artistas, de alguma forma, o conserva ou o faz artista também: volta e meia organiza festinhas com a nata da intelectualidade numa das casas que herdou da família. Quando fica cheio do goró, faz discursos, quase palestras, no fundo um blablablá interminável sobre a verdadeira essência da vida ou sobre a necessidade de ser e de se sentir livre ou sobre como as almas evoluídas sofrem nas mãos do mundo insensível, injusto e burguês. Um clichezão daqueles, sobretudo quando se leva em conta que caco não é nada daquilo que apregoa. O pior é saber que sempre tem um ou outro caindo na sua conversa de injustiçado: de uma maneira um tanto quanto inexplicável, ele consegue criar toda uma espécie de aura ao redor de si mesmo e convence meio mundo de gente de que de fato é um batalhador e que manda muito bem. E assim vai levando, empinando a bunda no meu sofá, fazendo dramas, soltando umas bufas e se sentindo “iluminado”.
- caco, e aquele projeto do jornal?
- desisti; sobrava todo o trabalho pra mim.neguinho tá pensando o quê? Sou artista, porra, não tenho que ralar, não!
- mas a turma todo não era de artistas também?
- nada. Tudo burguês, gente que recebe subsídio de parente.
- e você não?
- que conversa é essa, rapaz? Ih...
Ficou me olhando de lado e então levantou um pouco o quadril, provavelmente soltando outra bufa. Orgulhoso que só. Depois começou a falar sobre um projeto em andamento, um dos bons desta vez. Parecia bem confiante. Eu sabia, no entanto, que esta confiança, com o passar dos dias, diminuiria, e que tanto este como qualquer outro projeto, se dependessem unicamente do esforço e da capacidade dele, nunca dariam em nada( caco precisa apenas do sol das praias, da ebriedade das noites, da leveza que somente o descomprometimento pode trazer), assim como também sabia que logo após a janta, antes de lavar os pratos, ele viria com uma meia desculpa qualquer, talvez um encontro com algum ator, diretor ou um novo talento musical, talvez uma dor de cabeça ou esporão ou mesmo um desses afazeres fictícios que de tanto repetir acabam virando realidade, e sairia apressado como alguém que está prestes a pegar um trem, salvar o mundo ou qualquer coisa assim. E foi justamente o que vi: ele descendo de dois em dois os degraus da escada, os cabelos, bem tratados, balançando no ar, a pele morena queimada de sol e uma mancha marrom, quase imperceptível, nos fundilhos da calça que alguém, o ano passado, trouxe especialmente pra ele do Perú.
r.m.
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5 comentários:
KKKKKKKK!
E não é que tá cheio desse tipo de pilantrinha por aí?
KKKKKKKK
lembrei do quadro "república dos bananas" de Angeli, e tentei imaginar como seria o Caco desenhado por ele, rs...
Aqui é Izadora, a amiga de Calango-Scooby-Duda(...), que foi com ele visitar a sua família. Já havia lido uns textos seus que Calango me indicou. Vim aqui dessa vez para pedir seu e-mail, pois tenho o livro Não te Deixareis Morrer, David Crockett, de Miguel de Sousa Tavares, em pdf e gostaria de te passar.
Ainda pretendo conhecer o bar, já que não foi possível quando tentei, rs. Vou ver se levo um pessoal legal lá.
Ah, meu email(legado de uma época que mal lembraria não fosse o tal nick pseudoroqueiro: subversivadamonotonia@hotmail.com
Você matou o matador! Faz tempo não apareço p te ler, mas estou sempre por aí.
Abrç.
Zezo Maltez
isso me lembrou um amigo em comum.... kkkkkkkkkkkkkkk. lembrou-me muito mesmo!
"mancha marrom, quase imperceptível" essa foi ótima. Talvez seja o motivo da pressa, kk.
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