sábado, 11 de abril de 2009

TEMPOS MUITO DEMAIS MODERNOS

Ele chegou e enfim consegui respirar novamente. O dia todo fiquei com medo. Permaneci escondida na sombra que os objetos faziam pela casa, conforme o sol cumpria sua rota astronômica. Chorei quando ouvi ruídos próximos da porta e pensei que talvez eles estivessem aqui para me levarem embora. Uma mosca estranha também tentou pousar muitas vezes em meu cabelo e fui tomada por um infinito terror. Por isso, quando ele entrou em casa eu respirei e sabia que não estava mais só e podia ser corajosa e ir até a cozinha tomar um copo de água. Ele parecia muito cansado e cumpriu com seus movimentos ordinários. Deixou a pasta sobre a mesinha próxima da porta. Tirou os sapatos e os colocou embaixo da cama. Tirou a roupa, e deixou-a sobre a cadeira. Depois tirou a minha. Alguns minutos depois levantou e foi ao banheiro. Eu fiquei olhando-o fazer xixi ainda deitada na cama. Senti ainda algum receio da vida estranha que estava vivendo sob a minha janela e pensei que talvez aquele ar de outras pessoas pudesse me fazer algum mal. Soltei um gritinho abafado e enfiei a cabeça embaixo do travesseiro. Ele voltou, abriu o zíper que descia desde o osso esterno até o umbigo, e retirou de lá os órgãos que ainda lhe restavam: o estômago, fígado e intestinos. Deixou-os dentro do jarro ao lado da cama e ficou ao meu lado dormindo com os olhos abertos. Eu enfiei a mão no buraco do meu peito, agora eu podia, com ele velando o meu sono, sim, eu conseguiria, e senti o passarinho que vivia entre os meus pulmões. Era um pequeno beija-flor asmático que, quanto mais as asas batia, mais perto da morte se aproximava.

2 comentários:

Bruno disse...

E quantas vezes essas asas batem por segundo?

Francesco Esposito disse...

piccola come sei
ti muovi tra le tenebre
invisibile alle ombre che pur fuggi
erri tra le tue oscurità
cieca alla tua propria luce
mentre io ti raccolgo nel mio sguardo
lucciola ed astro
di una infinita promessa.