Tinha um pessoal cheirando pó dentro de um carro na frente do bar. Creio que dois caras e uma mulher. Debrucei o meu tronco no muro da varanda, ficando praticamente dependurado, e falei pra eles:
- Ei, turma, aí não!
- O quê?! – um dos caras gritou, o que estava do lado do carona.
- Vocês não podem fazer isso aí, não! – respondi.
- Ah, porra, aqui é uma rua, um lugar público!
- Público, o cacete! Vocês estão no passeio do meu bar, seus filhos da puta! – disse, já imaginando a merda que estava por vir.
Então eles conversaram um pouco, depois ligaram o carro e foram embora. Um pouco de bom senso, pelo menos. Voltei para o balcão e preparei um conhaque com gelo e refrigerante para Adib. Adib também fazia das suas, mas usava o banheiro e não deixava pistas por lá – o tipo do freqüentador que se preocupa com as regras do lugar. Isso conta bastante. Ele pegou o copo de conhaque com refrigerante e deu dois bons goles. Em seguida acendeu um Hollywood e ficou olhando pra mim.
- Você ta preocupado com alguma coisa.
- Eu?
- É. Ta com uma cara diferente. Se for o meu débito, terça sai um dinheiro.
- Não é nada disso.
- É o meu entra e sai do banheiro?
- Não.
- Hum.
Tirei as cervejas que estavam na parte de cima do freezer e passei para a geladeira. Quatro ou cinco haviam empedrado. O movimento estava fraco. De qualquer maneira, coloquei quatro quiches para assar. Adib falava sobre alguém que aprontara com ele no bar do italiano na noite passada. Ou talvez na noite retrasada. Ele falava daquele jeito enrolado dele, quando Deise apareceu. Vinha de um show de pagode. O show tinha sido uma porcaria, choveu e tudo, mas ela ainda sorria sem parar. Em determinado momento, os dois foram para a varanda, fumaram um cigarro e então Deise passou para o banheiro. Dois minutos depois, saiu com aquela cara de quem acabou de ser pega roubando. Engraçado, mas ao mesmo tempo triste.
- Me dá uma tequila.
Coloquei a tequila e ela virou de uma vez.
- Agora, uma cerveja.
Sentaram-se do outro lado do balcão e Adib voltou a falar sobre o cara que aprontara com ele. Uma estória confusa, parece que o cara roubou Adib de alguma forma e depois fingiu que nada tinha acontecido. Eu não consegui acompanhar. Há uns dois ou três dias me sentia um tanto distanciado de tudo e, ao mesmo tempo, incomodado, sem no entanto entender o porquê daquilo. Deixei os dois no balcão e fui até a varanda fumar um cigarro. O carro com os dois sujeitos e a mulher voltara e estava estacionado no mesmo lugar de antes. Eu via através da sombra o movimento que faziam. Por mais que a rua estivesse sem fluxo, a qualquer instante poderia aparecer alguém.
- Ei, caras! Ei!!!!
- Ah, porra, vai tomar conta da sua vida! – gritou um deles.
No mesmo instante desci, peguei a pedra que escorava a porta e fui em direção ao carro. Estava enfurecido – muito pela prepotência do mundo, outro tanto por aquele mal estar que eu vinha sentindo. Enquanto caminhava, ouvi alguém gritar “Puta merda, aquele maluco ta vindo com uma pedra pra cá!”, então os faróis se acenderam e o carro de repente saiu cantando pneus.
Então eu estava do outro lado da rua, encostado à mureta. As luzes dos barcos deslizavam lá embaixo, no mar, e a luz do farol às vezes iluminava o seu caminho. Cada coisa que a gente tem que passar, eu pensei. E a depender do dia, parece que tudo ganha proporções diferentes, tudo torna-se raso ou profundo demais. Que invenção essa, o homem. O homem e o mundo que ele inventou.
Quando voltei, não encontrei Adib nem Deise. Imaginei que estivessem lá em cima e não gostei da idéia: o lugar de fazer certas coisas era o banheiro, era lá que se dava descarga, que se lavava as mãos, que se evitava os flagras. Fui, me esforçando para não fazer barulho, ver o que eles faziam. Olhei para o palco e nenhum sinal. Quando me virei para o outro lado, vi Deise debruçada na janela e Adib pegando-a por trás, pela cintura, e fazendo aquele movimento de ir e vir. Os dois embalados pelas cafungadas, pelo álcool e pela necessidade de sentir, a luz do poste em frente batendo nos dois e criando reflexos bonitos, imagens cheias de vida e de cor. Às vezes ele aumentava o ritmo e ela gemia baixinho, jogando a cabeça para trás.
Voltei para o balcão, coloquei um disco pra tocar e tirei as quiches do forno. Eram 12:47 de uma noite fria e sem futuro algum. Talvez eu devesse contratar alguém, pensei. Ou viajar. Peguei o copo de conhaque com refrigerante de Adib e virei.




