sexta-feira, 6 de junho de 2008

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Um dia você sente ódio. O corpo queima a garganta estreita e os olhos ardem. Então você grita com seu pai e dispara uma corrida até o quarto permanecendo o resto da noite lá trancado. Chorando.
Você cresce, sente ódio e bate a porta do carro, o telefone, a mão na parede e um vaso que quase acerta a cabeça de alguém. Você chora muito pouco, bebe muito e dorme bastante.
Você trabalha e sente ódio, e manda numa conversa amistosa com ironia nos olhos sua chefe enfiar no cu seu modo caipira de administração. Depois disso, se inscreve em aulas de boxe próximo ao trabalho e todos os socos no saco de areia são dedicados à Gorda-Feia-Mocréia-Caipira que acha que é gente.
Você sente ódio e nunca mais dirige uma palavra ao escroto machista que trabalha com você e acha que é um tipo quando na realidade é um porco ignorante e limitado.
Até que um dia aulas de boxe, remédios, fitas de meditação e paciência de poucos amigos não são mais suficientes.
Você sente ódio. E descobre que odeia porque na realidade gosta de pessoas mortas. Sim, muito mais do que vivas.
Um dia você realmente alivia seu ódio e percebe que nunca mais poderá parar. Não mais. Então vive em muitos lugares, sempre em busca de um modo de parar o que sente dentro. O calor, a febre, a vontade de tirar um elefante da garganta e do peito.

Você acorda então em muitos lugares estranhos. E todos esses lugares são você.

Bianca Rosolem

Um comentário:

F. Reoli disse...

Uma sensações estranha essa de estarmos dentro da gente... principalmente naqueles nichos em poeirados e silenciosos...