domingo, 13 de julho de 2008

COLOSTRO

Não deu pra ver direito, mas creio que era “ciclo de sucção-degustação”. As letras pequenas, as palavras trocadas tão rapidamente que mal dava para acompanhar a velocidade do data show: uma palestrante explicando sobre mamadas e a forma certa de se banhar um bebê. Enquanto isso, um monte de mulheres grávidas, todas com os olhos e ouvidos atentos, vez por outra levantando-se para ir ao sanitário ou ao bebedouro, circulando pra lá e pra cá feito pingüins em marcha, os pés inchados, as barrigas enormes, preocupações.
Eu, discreto num canto, enganava o sono e tentava me entrosar ao ambiente, embora desconfiado de que não possuía muito jeito pra esses momentos sociais. Meu talento, como se diz, sempre se resumiu a disfarçar o meu desapego e o meu distanciamento em relação às formalidades e/ou obrigações. Levei a vida na xinxa, na minha, como quem não entendeu o recado muito bem.
O caso, no entanto, é que minha esposa, por demais inteligente e carinhosa, estava a duas horas sentada na cadeira ao lado, com a barriga imensa, atenta a qualquer explicação. Eu a olhava com aqueles olhos miúdos e me achava um tanto culpado por não entender tudo o que a palestrante lá na frente dizia. Eram termos novos, difíceis pra mim, e eu me sentia como se estivesse numa reunião da NASA, todas aquelas mulheres sendo um pouco astrônomos ou astronautas geniais.
- E o colostro, alguém sabe dizer porquê é tão importante para o recém-nascido?
Ninguém sabia, mas também não tinha importância, era a hora do intervalo. Numa sala ao lado, sucos e salgadinhos esperavam pelas ansiosas e esfomeadas gestantes. Garçons distribuíam copos e guardanapos. Num canto, uma senhora cortava e colocava em pratos plásticos alguns pedaços de bolo. Tudo havia sido preparado com muito capricho, carinho. E então aqueles pingüins de batas e vestidos estufados aproximaram-se, curvaram-se sobre a mesa e em menos de cinco minutos não havia mais nada ali, apenas farelos e papel. A sala recendia a Hiroshima após a grande bomba. Coisas da vida. Num banco de madeira que ficava perto da mesa de sucos, minha esposa conversava com algumas novas amigas – pratinhos no colo, boca cheia, resto de queijo na ponta do nariz. Eu, discretamente, mordisquei uma empadinha de ricota, fria e quase sem gosto, numas de interagir.
Rodrigo Melo

9 comentários:

Ivy disse...

Parabéns- com algumas horas de atraso- para ti, meu amigo, canceriano querido!
Dura esta sensação sua com relação a maternidade, diz a lenda que vocês homens só conseguem captar coisas de papai quando o rebento nasce. Graças a Deus vocês futuros pais não sofrem de ansiedade excessiva que nós mulheres possuímos em demasia e por dois!rs
Sofrer por antecipação é arte nossa.

Muitas felicidades sempre para ti. Um beijo. E muitos beijos para suas duas meninas.

rm, disse...

Ivy, você mora no peito.

rm, disse...

ou qualquer coisa assim...

e a menina nasceu, Amaralina, com 2 quilos e novecentos, no dia 13 de julho, ontem, dia do escriturário(acho que é isso) e do rock, por coincidência o meu dia também. um dia nublado, frio pra cacete.
a danadinha surgiu lá no final do corredor assim meio emo, cheia de franjas, berros e com dois olhões esbugalhados, creio que doida pra engolir esse mundão.
um beijo pra nós, beibe.
creio que é isso aí,

marcelinho disse...

parabens pra vc, e agora parabens pro papai. ô vei, mantenha esse blog atualizando viu. abração pra vc, pra patroa e pra pimpolha Amaralina. muito bom esse ultimo texto, ri sozinho causando olhares, hehehe. inté mo querido.

Anônimo disse...

Amaralina, dia do Rock, frio e vontade de abraçar o mundo... essa guria ainda vai longe. Seja bem-vinda, pequena.
Parabéns, Rodrigão. Sua filha vai mudar sua forma de escrever?

Forte abraço.

Tom

F. Reoli disse...

Como já disseram na canção: "o que é que a gente não faz por amor..." rs
Abração

Emerson Wiskow disse...

Vou deixar meu abraço aqui, Rodrigão. Felicidades para vocês três.
abração

Anônimo disse...

em ordem crescente, amaralina, mariana e ida. imagine...

r.m. disse...

filhas e afilhadas, hein, leo anonimo,