quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Des-geração

Ele acordou sem saber e olhou no espelho. Abriu a torneira e lavou o rosto, mas continuou do mesmo jeito. Nem acreditou. O banheiro parecia a sucursal do inferninho do centro. Era tanta cueca espalhada que ele nem acreditou que eram todas de sua bunda. A escova de dentes amarelada dizia que era hora de consultar um dentista para não precisar de dentadura aos 30 anos. A roupa mais limpa estaria, provavelmente, no fundo do cesto abarrotado. Não sabia se era da azia ou da dor de cabeça, mas precisava vomitar. Dias de ressaca é isso, uma grande vontade de expelir os orgãos internos inteiros na privada. Dar uma descarga e encaminha-los ao rio Tietê, juntamente dos demais dejetos expelidos por todas as famílias sorridentes que atulhavam os parques aos domingos. Quem sabe pedir um transplante mais tarde, viver uma vida de retalhos humanos salvaria o arremedo que ele arrastava pelo apartamento naquela manhã natimorta.

Cigarros, aos montes, atolavam os cinzeiros, assim como os restos de cerveja. Estavam à disposição de algum desesperado que ousasse se utilizar dos restos mortais de noites retrasadas e cansadas. Podia, sim, voltar para a cama e rezar para acordar no paraíso muçulmano de mulheres com olhos rasgados e tez bronzeada, oferecendo-lhe orgasmos eternos. Mas ele era um filho da puta ocidental, de modo que a pós-vida seria uma coisa chata e tediosa com o soundtrack da Enya com diarréia cósmica. Passaria a eternidade dialogando com anjos de pintos pequenos e roliços que nem um viado ousaria utilizar.

Queria telefonar para algum S.O.S. aos suicidas, mais um dos serviços indispensáveis a vida moderna, mas o telefone havia sido cortado. Afinal, ou se bebe ou se paga o telefone. No caso a escolha é óbvia.

Se voltasse para a casa dos seus pais poderia tomar um banho quente com sabonete perfumado, almoçar com talheres em um prato, e arrotar a abundância que ele nunca ousara procurar nos classificados dos jornais. Mas lembrou do que vira no espelho e desistiu, sua mãe sofreria mais um desgosto e enfartaria. Não suportava o olhar de frustração da sua mãe: “Qual foi meu erro?”. Do princípio: Casar com aquele babaca do meu pai que fica com a pança na carroceria do carro aos domingos, lavando os louros da vida burguesa. Depois, ter um filho e achar que ele poderia ser diferente dos demais fracassados dos rebentos vizinhos. Pois, então, mamãe, o seu erro foi acreditar na glória da esperança secular.

Sentiu o gosto do bife a role, mas desistiu, não poderia corroborar aquilo que a senhora de grandes tetas esparramadas sabia no seu íntimo e infinito feminino. As mulheres eram foda. Por isso elas batiam a porta e quebravam pratos na parede. Há até certa histeria, mas ele reagiria da mesma forma se não tivesse a cabeça de baixo tão importante em detrimento de sua sinapse. Achou um livro abandonado ao lado do vaso sanitário que alguém havia dado a ele. Mas os óculos não estavam lá, assim adiaria para o próximo século a leitura de mais uma relíquia da humanidade.

Se ainda tivesse alguma dignidade, enfiaria a cabeça no fogão e asfixiaria. Mas não tinha gás. Pôrra, que merda que ele era afinal?
Bianca Rosolem

Um comentário:

Thabata Lima. disse...

Resolvi vir comentar aqui também !! ^^ Este blog é ótimo. Adoro ler crônicas. Até !!